O Estado e sua História


República do Cunani

O termo Cunani vem do tupi, e é um dos nomes do tucunaré, peixe da região amazônica. A atual vila de Cunani é distrito do município de Calçoene. Deve possuir cerca de 500 habitantes entre os que moram na sede e os da região ribeira. A base econômica é a pesca e a pequena agricultura. A extração de madeira é outra frente econômica, mas o trabalho é todo manual, por não existir serraria motorizada. Os meios empregados são os serrotes, manejados por dois homens, um em cima e outro em baixo da tora de madeira, suspensa quase dois metros. Este procedimento já era empregado no século XVIII, período da escravidão negra no Brasil.

Escudo da República do Cunani

Escudo da República do Cunani - Acervo Edgar Rodrigues

A vila possui uma escola, um posto de saúde e um posto de telecomunicações. O pequeno comércio é abastecido com mercadoria trazida de Calçoene ou comprada a bordo de barcos regatões que de tempo em tempo vão entrando nos rios, aparecendo aqui e ali povoados isolados. O campo de pouso falta ser recuperado. Pode-se alcançar a vila por dois caminhos: pelo oceano, saindo de Calçoene, a viagem dura 10 horas em barco motorizado. A pé ou a cavalo, pela praia, também é possível, saindo de um lugarejo chamado Cocal.

Por que este povoado tão pequeno e isolado despertou a cobiça de aventureiros como Jules Gross e Adolph Brezet, chegando eles a transformar essa região, por duas vezes, em república independente? Mas a República de Cunani não constituiu um fato isolado. A própria cobiça francesa por toda a região do Contestado se verificou ali culminando com vários conflitos armados ocorridos entre franceses e brasileiros.

A sanha de Jules Goss e seus aventureiros provocou, assim, o aparecimento da República em 1885, que foi logo abafada pelo próprio governo francês, por causa da situação ridícula que causou à França. Mesmo assim, houve uma segunda tentativa, provocada por outro francês de nome Adolph Brezet, em l902, mas foi sufocada, desta vez, pelo governo brasileiro. Mesmo com sua duração efêmera, os selos e moedas do Cunani atualmente representam valores incalculáveis para filatelistas e numismatas.

Jules Gross - A primeira República

Em 1885, um grupo de aventureiros franceses proclamou a caricata República de Cunani, que se estendia do Oiapoque até o Araguary, exatamente na região contestada pela França. Esses homens elegeram presidente vitalício do no Estado, o cientista francês Jules Gross, romancista e membro da Sociedade de Geografia Comercial de Paris. Mas aquilo que poderia se consolidar numa República Independente malogrou perante as deficiências geográficas e jurídicas. Mesmo assim eles emitiram selos e cunharam moedas.

A aventura teve duração efêmera embora Gross houvesse constituído o governo, criando a Ordem da Cavalaria Estrela de Cunani, para condecorar os simpáticos à causa, o que rendeu bons proventos financeiros pela larga e bem paga concessão que dela fez o esperto "chefe de Estado". Enfim, eles providenciaram tudo para que o mundo reconhecesse o novo país incrustado no meio equatorial. O governo francês, ante o escândalo que representava tal façanha, em 2 de setembro de 1887 resolveu acabar com ela.

A República do Cunani era tão caricata, tão de brincadeira, que a maioria dos ministros nomeados por Jules Gross não arredou os pés de Paris, atém por causa do pavor irradiado por algumas paragens sul-americanas, como a nossa. Portanto, não foi difícil desestabilizaá-la.

Na opinião de Arthur Cezar Ferreira Reis (A Amazônia e a Cobiça Internacional - Manaus, 1946), se o Ministério da República do Cunani funcionava em Paris e não em Cunani, nada havia que autorizasse o funcionamento de um governo local subordinado ao tal gabinete ou em obediência a Jules Gross; e por saber que o corpo administrativo era integrado por indivíduos estranhos à vida de Cunani, o governo francês achou por bem rechaçar tal República que só gracejos e piadinhas de mau gostou causou à Coroa Francesa... um povoado de apenas 300 pessoas (na época).

O jornalista Hélio Pennafort, que deu notáveis contribuições, com suas reportagens sobre a vida interiorana, a respeito de Cunani escreve: "Jules Gross e sua turma desejavam transformar em Estado Independente a cobiçadíssima área encastada entre o Oiapoque e o Araguary. Este ano (o artigo de Penafort é de 1985), segundo alguns historiadores, a República Independente de Caunany completaria cem anos de proclamação se a França não tivesse agido energicamente, certa de que a situação só iria causar embaraços aos planos que estava paulatinamente executando com vistas à ocupação integral do território amapaense, que na época não havia nenhuma definição concreta a quem pertencia. E em muitas partes da região, chamada então Zona do Contestado, havia muitas riquezas que vinham sendo exploradas por quem quisesse, com os franceses detendo a maioria, devido à proximidade com a sua Guiana, onde uma boa estrutura naval facilitava a vinda de milhares de trabalhadores, principalmente para a coleta do ouro e a extração de madeira e sementes oleaginosas. O interesse da França era tão grande que chegou até a patrocinar a construção de uma estrada de ferro unindo a região aurífera de Lourenço à cachoeira da Sidomena, na cidade de Calçoene". (Histórias do Amapá – Nunca vi rio tão danisco de bom" – Artigo publicado no Jornal do Dia, de 11 de maio de 1997 – Macapá-AP). Hélio assegura em seu relato, que "os vagonetes chegavam sobrecarregados de ouro que eram embarcados em navios, usando como trapiche as próprias barracas da margem. Em Oiapoque, outra região bastante explorada pelos franceses, a carga principal era o pau-rosa que descia do Cricou (afluente do lado brasileiro), em pequenas embarcações até a enseada do Maripá, onde havia o transbordo para barcos maiores, que levavam a carga para Cayenne. A essência do pau-rosa é matéria prima muito requisitada pelos fabricantes de perfumes franceses. Assim, não podia haver espaço para Gross e seguidores. As autoridades da França, portanto, devem ter pensado: Como se não bastassem as esporádicas reações dos lusitanos e brasileiros,ainda aparece esse grupo de psedo-conquistadores querendo competir com o nosso comércio fácil e de altíssima rentabilidade". Mas deu trabalho o processo de desestabilização da República Independente do Caunany. Foram dois anos de muito trabalho e enorme pressão. Isto porque para Jules Gross, Cunani não era simples aventura. Ele levou tão a sério a sua idéia que mandou emitir emblemas, cunhar moedas, emitor selos e fez uma propaganda enorme para que o país ficasse conhecido em todo o planeta".

A liderança de Trajano

O lado histórico do Cunani, de fato, é rico em proezas e peripécias que infelizmente o relaxamento dos nossos contadores de história nos sonegam. Só quem tem a dita de consultar bibliotecas francesas é que pode conhecer com mais detalhes o que aconteceu por lá, no século passado. Aliás, todo esse trabalho foi baseado na documentação de Cayena sobre o fato.

No entanto, mesmo na pobreza historiográfica, dá para saber que na época em que o Amapá era chamada de Zona do Contestado – não estava ainda decidido se pertencia ao Brasil ou à França – a dificuldade era pouca para alguém chegar por aqui e dizer-se dono de pedaços de terra. Mas um grupo de franceses liderados pelo geógrafo Jules Gross foi mais além. Como vimos antes, eles simplesmente proclamaram uma repúblicas com terras que abrangiam praticamente toda a área do Contestado. Emitiram selos

A história da Primeira República de Cunani vai mais além. Não muito tempo depois da charge republicana, a vila voltou a servir de cenários para acontecimentos que decididamente muraram os rumos da região. Vindo do interior do Pará, um negro de meia-idade, baixo e de boa musculatura, chamado Trajano Benitez, ali chegou para aventurar a sorte, atraído pelas notícias que propagavam a fartura de ouro no Calçoene. Trajano deve ter preferido morar no Cunani porque a maioria da população era negra. Ele começou, então, a se meter em assuntos que envolviam a vida comunutária, mostrando logo sua vocação política. Deixemos, agora, o relato com Hélio Penafort:

"O governo francês estava precisando de um indivíduo popular e simpático às pretenções francsas, e Trajano era tudo isso. Não demorou muito estava ele liderando quase toda a extensão das ribanceiras do Cunani, contestando abertamente a autoridade do Triunvirato brasileiro que governava a vila do Espírito Santo do Amapá e lugares próximos. Recebeu de Caiena o título de Representant dês Intérets Français à Counani e aí é que se encheu de dedos. Encurtando a história, quando a turma do Triunvirato deu por si, Trajano já havia mandado rasgar a bandeira brasileira e hastear o pavilhão francês em lugar mais nobre do Cunani. E defendia mais os crioulos da Guiana que trabalhavam nas minas do que seus patrícios que perambulavam pelos interiores.

Vendo que a situação periclitava a cada dia, o Triunvirato mandou um destacamento para Cunani, que prendeu Trajano e o levou para a vila de Amapá. E foi justamente a prisão de Trajano que provocou a invasão do Amapá pelos soldados do capitão Lunier, em 15 de maio de 1895. E foi justamente a invasão do Amapá que apressou a reunião da Corte Internacional que julgou a questão da Zona do Contestado e deu ao Brasil as terras que hoje formam o Estado do Amapá.

Adolph Brezet - A Segunda República

Em princípios de 1893 a vida em Cunani volta à normalidade, e o episódio da Primeira República parece que foi esquecido. Maioria da população, formada por brasileiros, vivia da coleta de especiarias, da pesca nos lagos, e do fabrico de grude de peixe para um comércio manhoso. De repente, a descoberta do ouro pelos garimpeiros de Curuçá, Germano e Firmino Ribeiro, em Lourenço, começou a modificar o quadro: a população, em poucos meses, de 600 habitantes chegou a 5 mil, só em Cunani. Isto provocou inúmeros incidentes na região, como o conflito de 15 de maio de 1895, que culminou com a vitória dos brasileiros e a ligeireza na resolução da questão do Contestado, através do arbitramento de Berna, em 1º de dezembro de 1900. (Ver o Contestado Franco-Brasileiro).

Preocupado com a colonização da região, o governo do Pará, com o aval do governo brasileiro, nomeou um Conselho de Intendência, que passou a vigorar a partir do dia 30 de abril de 1902. Para isso, foram escolhidos o capitão Amaro Brasilino de Farias (presidente do Conselho) e os membros Joaquim Félix Belfort, Daniel Ferreira dos Santos e Manoel Agostinho Batista, que assumiram seus cargos respectivos no dia 15 de maio.

Em maio de 1902 um aventureiro francês de nome Adolphe Brezet, tentando restaurar a República de Gross, começou a encaminhar ofícios à região de Cunani, comunicando uma nova proclamação, e as nomeações de Félix Antonio de Souza, Antonio Napoleão da Costa e João Lopes Pereira para seu ministério.

O plano de Brezet foi imediatamente denunciado por Daniel Ferreira dos Santos ao intendente Brasilino, que baseado em farta documentação, escreveu imediatamente ao coronel João Franklin Távora que a essas alturas se encontrava em Belém. Este levou o incidente imediatamente ao conhecimento do Governo do Pará que, em seguida, instruiu o primeiro prefeito de Belém, Henrique Lopes de Barros, para ir pessoalmente, acompanhado de uma força policial de 33 praças, comandadas por um oficial, para proceder sindicâncias necessárias.

Ao desembarcar no município de Amapá, em julho de 1902, o prefeito tratou logo de prender os ministros de Brezet que estavam reunidos na residência de Antonio Napoleão, um deles. Ali foram encontrados vários exemplares em português e francês, de propaganda e legislação da nova República de Brezet. Colocando um policiamento ostensivo em todo o município, e com a ajuda da própria população, Henrique Barros se dirigiu em seguida à vila de Cunani, e conseguiu a prisão de mais dois envolvidos: José da Luz e Raimundo Rodrigues Brasil.

Todos foram encaminhados à Comarca de Aricari, na sede municipal (Amapá), e colocados à disposição da Justiça. Os inquéritos duraram 15 dias. Após sua conclusão, os revoltosos receberam umas lições de civismo, e em seguida foram colocados em liberdade. Quanto a Brezet, ele resolveu ficar mesmo em Paris, caladinho, em recolhimento. Nunca mais se ouviu falar dele

Texto elaborado por Edgar Rodrigues

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